when i get home

O texto a seguir foi escrito em 01/03/2019 quando o álbum “When I Get Home” saiu. Preferi não alterar tanto assim o texto pra manter o sentimento de surpresa e êxtase que tive enquanto estava analisando brevemente o conceito visual do álbum dela. 🙂 Espero que gostem da leitura!

Ao me deparar com as promoções do álbum mais recente da cantora Solange ( pra quem não sabe, Solange é irmã da Beyoncé, mais conhecida por aquele filme adolescente lá “As Apimentadas”) consegui pescar umas referências à webarte, principalmente pela apropriação de uma rede social norte-americana chamada Black Planet.

Foto de As Apimentadas: Tudo ou Nada - As Apimentadas: Tudo ou Nada : Foto  - AdoroCinema
todo mundo tem um passado, né? Solange em “As Apimentadas: Tudo ou Nada”

Aos desinformados (assim como eu mesma) Black Planet é uma rede social que promove diálogo entre negros, penso que utilizar-se de uma rede que fora feita propositalmente com a intenção de unir negros e promover interação entre eles reafirma para quem Solange quer falar.

O que tenho observado desde A Seat at the table é que Solange quer experimentar passear entre música e arte, inserindo o corpo negro na performance (apresentações ao vivo), vídeoarte (a princípio vídeoclipes, mas todo o pensamento por trás de enquadramentos e de comportamento do corpo me fez pensar numa vídeoarte, onde o corpo faz parte da matéria performativa.) e na letra de suas músicas.

Os clipes de Cranes in the Sky e Don’t Touch My Hair, por exemplo, duas músicas do álbum anterior – A Seat at the Table, trazem uma carga performática muito grande, para além de um vídeo promocional de música, Solange traz corpos negros e dá protagonismo à eles nos dois vídeos. Promove sensibilidade e diversidade dentro do que pode-se compreender de negritude, quebrando o esteriótipo referente a imagem do negro dentro da industria musical.

Na minha ótica, os corpos femininos não são hiperssexualizados em nenhum momento, eles apenas agem conforme a narrativa proposta pela direção de vídeo. Não sou especialista em performance, quiça próximo disso, mas é notável como os corpos nestes dos vídeos em questão agem de maneira que remete à performatividade, o que demonstraria um interesse de Solange pelo experimentalismo da arte contemporânea.

Printscreen da página de Solange na rede Black Planet durante a promoção de When I get Home

Quando Solange apropria-se da plataforma para promover seu trabalho mais recente, acaba mostrando mais uma faceta do experimentalismo artístico ao utilizar-se da internet, mais especificamente de um site na web, como matéria para manifestação de seu desejo como artista.

A decisão por dispor seu trabalho desta maneira em rede demonstra uma vontade presente dentro a produção de webarte, comum entre o fim do séxulo XX e o início do século XXI. Para a produção de webarte, o espaço em rede proporciona um alcance mais democrático em comparação ao circuito de arte tradicional e institucionalizado. A ambientação em rede possibilita – tanto ao objeto de arte quando ao artista – novas formas de se compreender e dispor arte, uma vez que o circuito em rede se mostra mais abrangente.

Claro que Solange poderia ter usado outra plataforma para tal, o instagram seria uma boa possibilidade para este caso, porém, escolher Black Planet parece uma tomada de decisão a favor da negritude per si. Admito que não compreendo a importância desta rede social em comparação às outras pois não estou inserida nas interwebs gringas, mas creio que o sentido esteja mais ou menos neste caminho, mesmo. Reafirmar a própria investigação sobre aspectos da negritude em rede em seu trabalho, promovendo-o de maneira proposital numa rede preta.

A disposição do site me lembrou bastante webarte pelo fato dela não simplesmente dispor as informações de maneira óbvia e direta em sua página inicial. Ao acessar sua página, encontramos gifs e alguns versos e frases soltas. A leitura da página não é imediata, demanda um mínimo de passeio do olhar na diagramação para absorver as informações apresentadas.

O uso do perfil de Solange para dispor informações sobre o álbum e turnê eram dispostas – aparentemente de forma aleatória – após interação do visitante com seu conteúdo. Ou seja, o site, por si só, não “dizia” muita coisa, era um conjunto de informações textuais e visuais aqui e ali que poderia ser lido como uma bagunça sem pé nem cabeça. Adicionado a isto, a cada click uma novidade surgia. Esta estrutura é comum em trabalhos de webarte. É precisa uma interação com o conteúdo, e algumas vezes até investigação, para que se compreenda a possível mensagem transmitida.

Esta estrutura me fez lembrar imediatamente dos trabalhos do coletivo Jodi e de Raphael Rozendaal. Não irei me aprofundar descrições sobre cada trabalho e/ou artista mas em “http://wwwwwwwww.jodi.org” do coletivo Jodi, só se compreende o que é aquele conjunto de caracteres quando se clica com o botão direito e se vai em “inspecionar elemento” (ou “origem da página, dependendo do seu navegador) e finalmente se vê um desenho de bombas explodindo.

Clicar em “inspecionar elemento” não é uma orientação de leitura do site, mas uma investigação de leitura. Não é uma ordem, um passo-a-passo para sua compreensão, mas sim, uma amostra da interação através do clique. Nada impede o visitante de clicar nos links e ser redirecionado de forma quase infinita entre os trabalhos de Jodi mas isso acaba criando o hábito de ser curioso quando se passa por trabalhos de webarte.

“E se eu clicar aqui?” + ” O que é que esse gif faz?” + ” Será que tem algo no código?” + ” E se eu dar refresh na página?”

Printscreen da mesma página de Solange após refresh de carregamento da página.
Trecho de clipe que aparecia quando o site atualizava novamente.

Foi uma associação direta que fiz, é possível que eu esteja viajando na maionese ou que eu tenha compreendido o que Solange quis fazer neste retorno. Não me arrisco a falar sobre musicalidade de maneira mais densa pois não é o meu campo, mas percebo, como já disse, a necessidade de Solange de falar sobre negritude constantemente. E essa vontade de falar sobre si não se limita a uma única linguagem, escolher por algo com uma carga conceitual tão grande e disponibilizar essas interrogações e indagações numa mídia preta diz muito sobre suas intenções. Uma busca por experimentar suportes e alcances que sua música pode ter. E olha, ” a da vez” foi uma pitadinha de webarte.

Por fim, como não tenho certeza de nada dessa vida, só vou deixar a declaração de um amiguinho aleatório que encontrei lá no Black Planet aqui pra fechar o texto.

http://www.blackplanet.com/c8rter/message/20029389

Ou pode ser que ela tenha feito uma parceria com o Black Planet pra promover o site. Mas ela fez do jeito dela.

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